HISTÓRIAS DA REGIÃO
A Cascata Revelada

Quem hoje já não ouviu ou viu comentários, fotografias de amigos ou parentes, manchetes em jornais, revistas ou reportagens na televisão sobre a Cascata do Caracol e sua natureza exuberante?  Localizada na comunidade do Caracol na cidade de Canela, ela é sem dúvida um marco na vida das pessoas que já a conheceram, e um desejo daquelas que ainda não a viram.
Aventurar-se descendo 900 degraus para chegar próximo da queda d’água não é para qualquer um, mas vale a pena o sacrifício, pois a recompensa é enorme. Seguir o leito do arroio pelas trilhas que o costeiam, traz uma paz para o espírito inexplicável. Fauna e flora formam um conjunto com as corredeiras do arroio indescritível; é ver para crer. Sentir o cheiro da terra, ver e ouvir os pássaros e seu canto não é privilegio de alguns, mas sim de todos que se dispõem a caminhar com tranqüilidade e atenção pelo parque.
Todo este conjunto harmônico da natureza nos leva a investigar e conhecer quem foram os primeiros habitantes e proprietários de suas proximidades, ou da própria Cascata.
A principio, é necessário termos em mente como se deu a colonização do Rio Grande do Sul, que foi fundamentada no regime de pequenas propriedades através da mão de obra familiar; é assim que no ano de 1847 encontramos os registros da chegada da família de Wilhem Wasum, natural da cidade de Dorrebach na Alemanha.  No Brasil seu nome fora traduzido para Guilherme Wasem. Ao desembarcar na Colônia Alemã de São Leopoldo, Guilherme fora registrado como Lavrador e foi encaminhado juntamente com sua família para o Campo Ocidental, hoje Hamburgo Velho; lá ele viveu durante quase vinte anos.
Em 1864 conheceu o Campestre Canela, e encantou-se pelo lugar. Mudou-se então, mas permaneceu por pouco tempo nas terras do Campestre Canela, pois com a venda das terras pelo proprietário, se viu obrigado a migrar, e se deslocou mais ao norte, instalando-se como posseiro nas terras próximas, onde havia uma bonita cascata entre a mata intocada. Esta cascata recebeu o nome de “Cascata Wasem”.  Na época de nada valia uma cascata, pois o interesse era por terras planas que pudessem ser cultivadas pra agricultura ou utilizáveis para pecuária.
Segundo Stoltz (1992)* em 9 de outubro de 1880 Guilherme Wasem faz um pedido de medição de suas terras ao juiz da comarca de São Francisco de Paula, onde consta que ele é Senhor e possuidor de um sítio de terras de matas num lugar denominado Caracol, nos Fundos do Faxinal.  No pedido consta que ele morava com sua família desde 1845.
Mas como podemos observar ele chegou no Brasil em 1847. Houve um erro quanto à data da posse das terras, e isto é evidente; no entanto, todos os seus vizinhos também alegaram ter posse das terras desde 1845. Stolz relata que: “acredita ser uma mentira mútua entre ambos para assegurar a posse das terras**”.
A medição foi realizada pelo agrimensor João Jose Rath e Venâncio Manoel Correa como ajudante de corda. No mapa ao lado, podemos observar que não consta a cascata, por não ser significativo, e ser considerado menos importante que uma vertente como relata Stolz. A área foi calculada em quinze milhões e oitocentos metros quadrados.
Guilherme foi multado em Duzentos Mil Réis por não ter registrado as terras no prazo marcado conforme previa a Lei de Terras de 1850. Ele recorreu enviando uma carta ao presidente da Província, pedindo para isentar-se do pagamento por ser homem pobre e por residir num lugar sem recursos nem comunicação, mas foi multado da mesma forma.
O nome “Cascata Wasem” não pegou. E a cascata ficou conhecida pelo nome do arroio, que denominava-se Caracol, o qual tem as curvas do leito, que em alguns pontos do seu curso lembra um caracol.
Chamo a atenção em especial para dois fatos que merecem destaque: um deles é que ninguém queria o terreno no qual havia uma Cascata e que sequer no mapa constava: este era considerado improdutivo no final do século XIX. A Cascata recebeu o mesmo nome do arroio que se chama Caracol, tem 130m de queda d água, e em 1971 a área que a envolve foi tombada como patrimônio do Estado e se transformou em Parque Estadual; atualmente é um dos pontos turísticos mais significativos do Estado, e recebe milhares de turistas nacionais e internacionais todos os anos, movidos pela mesma emoção que movia os veranistas do inicio do séc. XX.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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* SOLTZ, Roger. Primórdios de Canela: Nascente Turístico do RS.
Canela: NBS.Ltda, 1992.

** SOLTZ,op.cit.p.73



Marilu Ana Bielski Kern
Licenciada em História e Pós-graduada em História do Rio Grande do Sul,
pela Universidade Do Vale do Rio dos Sinos

 

 

 

 

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