Em fins do século XIX nasce um menino em Santa Maria da Boca do Monte, que será chamado de João Corrêa Ferreira da Silva; sua história de vida é bastante peculiar: aos 3 anos fica órfão, aos 12 anos sai de casa e vai morar com os tios em Forromeco, distrito de Bom Princípio, onde freqüenta pela primeira e única vez a escola por um curto período de 3 meses, e inicia seu aprendizado como ferreiro; já com 17 anos trabalha na construção do primeiro ramal Ferroviário do Rio Grande do Sul, que ligaria Porto Alegre a São Leopoldo, e depois a Novo Hamburgo. Aos 19 anos se apaixona, e esta paixão por sua vez dará a sua vida um novo sentido e o fará lutar muito. E é sobre esta paixão com mistura de muito dinamismo, que ainda hoje envolve milhares de pessoas da mesma forma que envolveu João Correa, que iremos falar.
João Corrêa se apaixonou por um lugar, um lugar especial, embora outras pessoas não vissem nele nada de diferente. Naquele lugar, o clima era agradável, o verde de suas árvores era inigualável, as formas das montanhas eram espetaculares, a água maravilhosa, o ar mais respirável e sua cascata um espetáculo à parte: eram os “Campos de Canella”, e ele queria que muitas outras pessoas pudessem conhecê-lo, iniciando assim sua luta, primeiro pela compra dos terrenos e depois para construir a ferrovia que ligaria Porto Alegre a Canela.
Em 1899, ele e seu irmão, que haviam montado uma empresa de construção de estradas de rodagem e ferrovias (João Corrêa & Irmão), ganham a concorrência para a construção do ramal ferroviário de Novo Hamburgo a Taquara, inaugurado em 1903. Ficava nítido o desenvolvimento das localidades servidas pelo ramal e, nos anos seguintes, eles constroem uma série de rodovias, dentre as quais a rodovia até Canela, e vai adquirir 19 milhões de m2 dos Campos de Canella. Em 1904, segundo o relatório de Obras Públicas do Estado, João Corrêa tinha “600 empregados”, o que nos dá idéia do porte dos trabalhos que ele vinha desenvolvendo.
No período de 1904 a 1919, João Corrêa e Borges de Medeiros, então Governador do Rio Grande do Sul, trocam uma série de cartas, que deixam clara a forte solidariedade política que havia entre ambos, reforçada por laços de amizade. Em 1908, João Correa adquire mais 18 milhões de m2, tornando-se proprietário de todo o “Quadro de Canella”.
Em 10 de março 1912, agora já com a companhia João Corrêa & Filhos, ele firma com a Prefeitura de Taquara um contrato para a construção da linha ferroviária Taquara-Canela, tendo entre 1912 e 1913 construído uma casa residencial em Canela, sua “Ilha Perdida nos Trópicos, cheia de formosura e pronta para ser aproveitada e apreciada.”
A Companhia João Corrêa & Filhos contava na época com 100 contos de réis, dinheiro este vindo da venda de um pinhal de 20 colônias, adquirido pela Cia. Florestal Rio-Grandense de Canela. Já em 1914 é inaugurado o primeiro trecho da estrada de ferro que alcançava o povoado de Sander.
O Sr. Nilo Strassbuguer, morador de Sander, relata que o trem trazia até o local as encomendas para os caixeiros viajantes, que faziam depois a venda nos armazéns da colônia, nas casas de negócio como se chamavam na época; na volta, o trem levava para a capital produtos produzidos na colônia como suínos e feijão, e de Canela, principalmente a madeira das Araucárias.
As localidades de Mundo Novo (hoje cidade de Três Coroas) e Sander (atual bairro de Três Coroas) ficaram conhecidas como grandes produtoras de feijão, tornando-se o “ouro-negro” da região, tendo sido transportadas mais de 20.000 sacas de feijão por ano.
No início da exploração da madeira de araucária em Canela por volta de 1910, o transporte era feito por carroças até as estações mais próximas (Sander, Parobé e Taquara ). As carroças desciam a serra carregando até 8 dúzias de tábua de polegada, e eram puxadas por 8 mulas. As estradas eram precárias, fazendo com que a viagem de ida e de volta às localidades acima citadas levasse 4 dias.
Com a explosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a obra da construção da ferrovia Taquara – Canela ficou paralisada até 1916. Depois deste período, João Correa inicia uma batalha política para conseguir financiamento para a continuidade da obra, que resulta, um ano após, na liberação de empréstimo de Mil Contos de Réis, aprovado pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul (Lei 220, de 23/11/1917)
Em 24/05/1919 João Corrêa envia carta para Borges de Medeiros, solicitando outro empréstimo, pois o anterior não havia sido suficiente para concluir a obra; faltavam apenas 5 km de movimento de terras e 20km de assentamento dos trilhos, e seria uma lástima parar a obra, que tanto desenvolvimento gerava, na sua fase final. Informava também que havia conseguido aprontar cerca de 20km de linha.
Em junho de 1919 o trem chega em Várzea Grande (atual bairro de Gramado); o terreno para a construção da Estação Ferroviária é doado por seu amigo, o Sr. Mosé Bezzi, que por sua vez constrói um armazém que servia como depósito para os produtos produzidos pelos colonos para serem enviados pela via férrea. Sua filha, a Sra. Henriqueta Bezzi Paschoal, moradora de Várzea Grande, relata que até os ovos iam de trem em engradados de madeira com caixilhos que comportavam 30 dúzias de ovos. “Eu cansei de encher aquelas caixinhas para depois despachar pelo trem”. Relata ainda que o trem trazia as correspondências, e, como nos conta a Sra. Ilse Walli Dreher, moradora de Sander, servia também como uma espécie de relógio: “quando o trem passava com aquele apito, era sempre perto das 11:00 h da manhã. Então nós sabíamos que era preciso deixar a lavoura e voltar para casa fazer o almoço”
O trem exerceu papel fundamental para o desenvolvimento naquela época, pois era ao mesmo tempo um meio de transporte e comunicação; o autor Roberto Schultz diz que o trem era a internet, da época.
João Corrêa, sabedor do progresso que o trem representava para a região, e do capital que ele já havia investido, das inúmeras dificuldades para realizar a mesma, entre as quais a altitude, a grande quantidade de cortes e aterros necessários, a falta de capital, etc. desdobrava-se cada vez com mais determinação para seguir em frente. Isto tudo era pequeno perto do desafio que estava por vir: lá estava ela, esplêndida pela sua magnitude, sustentando as mais belas árvores, desafiando o mais nobre sonho de um homem: “a montanha”. Para João Corrêa, que já havia superado 615m de altitude, não lhe passava sequer pela cabeça desistir, já que faltavam apenas 215m de altitude e 17 km para Maria Fumaça chegar ao seu recanto escolhido para viver: Canela. Mas o problema técnico de vencer a parte mais íngreme da serra parecia insolúvel.
Segundo Petit, foram então consultados engenheiros de renome, mas todos foram unânimes ao afirmar que somente obras de engenharia de elevado custo, os quais João Corrêa não tinha como arcar, poderiam dar continuidade à ferrovia. João Corrêa não desistiu, e para permitir que o trem pudesse vencer a parte mais íngreme da montanha em Várzea Grande, ele projetou um desvio chamado popularmente de rabicho, no qual o trem entrava para que todos descessem na estação de Várzea Grande e subia de ré, dando maior capacidade de tração, até o outro desvio onde os passageiros embarcavam novamente.
Englert relata, que esta obra impressionou os engenheiros da época, pois é única na história férrea da América Latina. Logo após ter adquirido novo empréstimo, João Corrêa constrói mais 10 km de estrada de ferro chegando até a localidade de Gramado onde foi inaugurada em 9 de abril de 1921.
. No período de 1921 a 1922, João Corrêa deixa pronto para receber os trilhos o trecho da ferrovia entre Gramado e Canela. Dois anos depois, sem que o governo tomasse nenhuma atitude para a colocação dos trilhos, os amigos canelenses de João Corrêa se sensibilizam para levar o trem até Canela. Além do apoio dos amigos, João Corrêa recorre ao banco para pedir um empréstimo para finalizar seu sonho, dando por garantia uma parte de suas terras.
No período da construção da ferrovia, João Corrêa vendeu 9 milhões de metros quadrados de terrenos para financiá-la. No dia 1 de agosto de 1924, é concluído o trecho do ramal ferroviário ligando Taquara a Canela “por entre os pinheirais e caneleiras, subindo a serra, o assobio imponente do enorme cavalo de ferro rompe o ar, levanta as aves da mata, desponta serra acima e mergulha no fundo dos olhos das pessoas do então povoado Campestre do Canella”. A estação ferroviária no entanto, é inaugurada no dia 13 de agosto, e passou então a ser divulgada nos jornais com os horários do trem, como “ Ramal Férreo Taquara-Canela”.
A obra estava então concluída, porém havia o problema de como a ferrovia seria mantida, já que era deficitária. Depois de muitas tratativas, a Assembléia Legislativa do Estado aprovou o processo de encampação da Estrada de Ferro pelo Estado por valor considerado irrisório por João Corrêa que, não tendo outra opção, acaba aceitando-o, mas fez questão de deixar claro porque estava fazendo:
“Meu desejo é não ficar devendo um vintém a quem quer que seja. Pagarei até o último níquel. A minha glória e a de meus filhos é a de havermos vencido a subida das montanhas arrastando sacrifícios penosos das intempéries do tempo e até fome. A estrada ficará aí para exemplo dos que tiverem que repetir esta façanha. Nada mais queremos, Canela será a Petrópolis do Rio Grande do Sul. Verão os homens de amanhã se fomos uns utopistas ou se revelamos ao Rio Grande um dos mais belos e futurosos recantos de seu território”.
Vários são os fatos que permanecem vivos até hoje na lembrança de inúmeras pessoas que conviveram com o trem: a Sra. Henriqueta conta que os passageiros recebiam um guarda-pó para se proteger das faíscas, e que uma vez queimou seu vestido, pois para subir a serra a Maria Fumaça tinha que funcionar a todo vapor. O Sr. Antônio Olmiro dos Reis nos relata as brincadeiras da garotada nos trilhos do trem, mas a mais impressionante era passar sabão nos trilhos do trem só para ver o mesmo patinar. A Sra. Éster Walda Heinrich conta que quando nevava em Canela, as pessoas faziam bonecos na plataforma da locomotiva, como forma de avisar que um dos mais belos espetáculos da natureza estava acontecendo, e de que estava muito frio: então quem quisesse subir a serra teria que se agasalhar bem.
O sonho de João Corrêa se concretiza, e a “Maria Fumaça” passa a dar um impulso maior na divulgação das belezas naturais de Canela: assim nasce o VERANEIO, e hoje o TURISMO cresce e se desenvolve encantando milhares de pessoas todos os anos, assim como encantou João Corrêa.
Ah, se a Maria Fumaça passasse por aqui novamente!

Trem na estação de Sander
Fonte: MOEHLECKE, Germano Oscar. Estrada de Ferro: Contribuição para a história da Primeira Ferrovia do Rio Grande do Sul. Rotermund. Porto Alegre: 2004, p.199
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
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ENGLERT, Suzana Vellinho. Canela A Reconquista de Um Horizonte: Memórias e Estratégias de Sucesso. Porto Alegre: Sulina, 2002.
FRANCO, Sérgio da Costa. Notas Sobre João Ferreira da Silva: O Fundador de Canela. In: OLIVEIRA, Pedro; BARROSO, Vera Lúcia Maciel (org) Raízes de Canela. Porto Alegre: EST, 2000. p.65.
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MOEHLECKE, Germano Oscar. Estrada de Ferro: Contribuição para a História da Primeira Ferrovia do Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Rotermund, 2004.
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OLIVEIRA, Pedro; VECH, Marcelo; REIS, Antônio Olmiro dos. Canela Por Muitas Razões. Porto Alegre: EST, 2000.
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STOLTZ, Roger. Primórdios de Canela: Nascente Turístico do RS. Canela: NBS.Ltda, 1992.
Marilu Ana Bielski Kern
Licenciada em História e Pós-graduada em História do Rio Grande do Sul,
pela
Universidade Do Vale do Rio dos Sinos
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