HISTÓRIAS DA REGIÃO
Os Primeiros Habitantes da Serra Gaúcha

Quem já não passou pelas cidades que compõem a Serra Gaúcha e Os Campos de Cima da Serra, e não se encantou com as belezas naturais, a técnica de construção enxaimel, o progresso das colônias de imigrantes - hoje centros industriais, e cidades que não perderam a leveza e o toque do ar interiorano, o povo muito alegre e hospitaleiro?
Se voltarmos no tempo, nem sempre foi assim. Com a chegada dos imigrantes europeus, a paisagem desta região mudou muito, os parreirais de uva, o cheiro do vinho os primeiros moinhos, as ferrarias, entre outros... passaram a fazer parte desta bela paisagem dando a ela uma nova roupagem.
Mas antes dos imigrantes, quem habitava estas terras? Como eram estas populações? Quais eram seus hábitos, alimentação e costumes? Com se protegiam das intempéries do tempo e do frio no inverno? Para responder a estas perguntas, buscamos na Pré- História  do Planalto Rio-grandense e na Tradição Taquara as respostas.
Estas populações são indígenas, hoje identificadas como índios Kaingang; as informações históricas sobre esta população do século XVI são raras, se tornam mais palpáveis com o início das missões no século XVII e depois com o processo de colonização iniciada pelos portugueses e espanhóis, e continua com os imigrantes europeus no século XIX.
Esta população se caracterizava como caçadora–coletora com uma horticultura incipiente. Apresentava uma organização social tribal na qual todos eram liderados por um chefe geral-cacique e cada família por um chefe, que a governava em caráter paternal, o cacique subordinado. Dividiam as tarefas conforme a idade e o sexo.
Para se proteger do frio e das intempéries, construíam o que os arqueólogos definiram como “casas subterrâneas” e popularmente ficaram conhecidas como “buracos de bugre”.
 O diâmetro destas casas subterrâneas poderia variar de 2m a 20m, por uma profundidade de 2,8 a 6m, sendo aglomeradas ou distantes umas das outras, mas não necessariamente do mesmo tamanho. As casas são divididas entre: pequenas - aquelas de até 5m de diâmetro, médias entre 5,1 e 10m e grandes a partir de 10m de diâmetro. Em um mesmo sítio podemos encontrar casas pequenas, médias e grandes. Quanto à profundidade dessas casas, os arqueólogos têm encontrado muitas dificuldades para defini-la, pois a grande maioria encontrava-se desprotegida das intempéries; bem como do avanço das cidades, construções de barragens e estradas.
Supõe-se que o acesso para o interior destas casas, naquelas em que a profundidade era maior, era por uma escada de madeira, sendo que hoje, em função da sua rápida decomposição, não se encontram mais vestígios; nas mais rasas, o acesso poderia ser através de banqueta, de rampa, ou pedras embutidas na parede, formando degraus. A grande maioria era face norte por razões de insolação.
Em relação à cobertura ou telhado destas casas, ele deveria ser de troncos, palha e terra. Quando a casa é grande e funda, provavelmente era apoiada sobre um esteio central, e as traves em raio descansavam no chão a alguma distância do lado de fora da boca; com isto, se evitava que a água das chuvas alagasse as casas ou mantivesse as paredes úmidas; uma valeta cercando o telhado, ao menos nos pontos mais altos do terreno, aumentaria a segurança.
As casas menores poderiam ou não contar com um esteio central, porque a cobertura poderia estar apoiada apenas nas bordas formando uma cúpula; esta se estenderia não só sobre a depressão, mas também cobriria parte do entorno; assim, o centro da casa teria mais espaço para abrigar um pequeno fogão composto de pequenas pedras como os de um acampamento de piquenique.
A cerâmica utilizada por eles na sua grande maioria era simples, sua estrutura é de pouca capacidade volumétrica, apresentando uma forma globular ou elíptica. São poucas as que ultrapassam 30cm de altura e 20cm de abertura ou largura do bojo, sua decoração era feita pela impressão de cestaria, unhas ou outros artefatos. Seus utensílios característicos são a vasilha de cerâmica, a lâmina de machado semi-lunar e a mão de pilão.

 

 

 

 

 

 


 Sítios estudados no município de Caxias do Sul indicam que a grande maioria encontra -se entre 688m e 850m de altitude, pois a partir delas teremos temperaturas mais baixas.
 Quanto à localização dos terrenos escolhidos por esta população para a construção de suas casas, temos vários fatores: o primeiro, a visibilidade, pois assim teriam um controle maior do território; o segundo, o declive, que além contribuir para a drenagem da água, diminuía a escavação de um lado, evitando esforços maiores, pois o material utilizado para este fim eram os artefatos de pedra feitos artesanalmente.  
O material retirado para a construção das casas seja ele pedra ou terra, tinha dois destinos: ou era amontoado próximo a casa formando um montículo de terra, ou era depositado em seu entorno.
  O terceiro fator é a existência da Floresta Ombrófila Mista, onde está presente a Araucária angustifólia, a qual fornecia para estas populações o pinhão, alimento valioso.
Tamanha era a importância do pinhão para a alimentação destas populações, que havia divisão destas áreas onde predominavam os pinheiros conforme o número de integrantes de cada grupo, e o não respeito a esta divisão era motivo de guerra de extermínio entre tribos. Sabemos que o pinhão atrai inúmeras espécies de animais, mamíferos e aves, sejam eles de pequeno ou médio porte, o que facilitaria a sobrevivência dos indígenas na floresta.
O quarto fator era a proximidade com água corrente, por isso todos os sítios localizados no Planalto Rio-grandense estão próximos a fontes ou córregos de água, mas evitavam a vizinhança de banhados, por causa dos mosquitos.
            Levantamentos arqueológicos registraram a presença de casas subterrâneas nos seguintes municípios: em Caxias do Sul, foram identificados 36 sítios, sendo que 29 deles apresentam casas subterrâneas - não é por um acaso que Caxias do Sul se chamava de “Campo dos Bugres”. No município de São Francisco de Paula foram encontrados 4 sítios, totalizando 5 casas. Em Flores da Cunha foram levantados 9 sítios, sendo 7 com casas subterrâneas (em apenas um deles encontramos 21 casas). Já em Bom Jesus foram identificados 5 sítios, sendo 3 deles com casas subterrâneas. Em Canela foi localizado um sitio com 4 casas subterrâneas; em Nova Petrópolis foram localizados 4 sítios, sendo um com 2 estruturas.
 O conhecimento amplo da natureza pelos índios mostra-se em cada etapa das descobertas arqueológicas, nos revelando o quão rica era esta cultura e quanto devemos fazer para conhecer e preservá-la.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

BEBER, Marcus V. O Sistema de Assentamentos dos Grupos Ceramistas do Planalto Sul-brasileiro: O caso da Tradição Taquara/Itararé. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 10. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, 2005, p.5-125.

CORTELETTI, Rafael. Casas Subterrâneas em Caxias do Sul: conservação, distribuição e implantação. Dissertação (Mestrado em Estudos Históricos Latinos Americanos) UNISINOS- Centro de Ciências Humanas. São Leopoldo, 2006.

MABILDE, Pierre F. A. Booth. Apontamentos Sobre os Indígenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos da Província do Rio Grande do Sul. São Paulo: Ibrsa/Instituto Nacional do Livro e Fundação Pró- Memória, 1983.

ROGGE, Jairro H. Fenômenos de Fronteira: Um Estudo das Situações de Contato Entre os Portadores das Tradições Cerâmicas Pré- Históricas no Rio Grande do Sul. Tese (Doutorado em Arqueologia) Programa de Pós- Graduação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2004.

SCHMITZ, Pedro I.(Org) Pré- Historia  do Rio Grande do Sul. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil. Documentos 05. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, 1991.



Marilu Ana Bielski Kern

Licenciada em História e Pós-graduada em História do Rio Grande do Sul,
pela Universidade Do Vale do Rio dos Sinos

 

 

 

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