Gostoso hoje é brincar no Labirinto, passear no Parque do Imigrante e usar as sensacionais malhas de Nova Petrópolis, passear no inverno pelas ruas, sentir o vento frio no rosto, sem esquecer é claro de admirar as azaléias num colorido sem fim. Ah! Como pude esquecer os Plátanos. Bom nem preciso falar. Fecho os olhos simplesmente e sinto a maravilha da sua beleza e leveza. E assim eu poderia continuar citando as inúmeras preciosidades desta cidade encravada na Serra Gaúcha. No entanto, é preciso lembrar daqueles que colocaram a mão na terra e construíram esta cidade, que faz parte dos sonhos hoje não mais dos imigrantes vindos da Europa, mas sim dos turistas de todas as partes do Brasil e do exterior.
A Colônia de Nova Petrópolis foi estabelecida em 1858, localizada entre os rios Cadeia e Caí. Para Helga Picollo, uma extensão da Colônia de São Leopoldo, rumo ao norte, para Cima da Serra. O Imperador gostava muito da cidade de Petrópolis no Rio de Janeiro, e em sua homenagem, a nova colônia foi denominada de Petrópolis, mas como a residência de verão do imperador no Rio de Janeiro já tinha o mesmo nome, a colônia recebeu então o nome “Nova Petrópolis”.
Conforme textos do Pe.Theodoro Amstad, Nova Petrópolis foi a primeira colonização a ser dirigida pelo governo provincial do Rio Grande do Sul. Antes a responsabilidade era do governo central do império, no Rio de Janeiro.
O objetivo de sua fundação era de tornar-se um posto intermediário no caminho projetado para ligar Porto Alegre aos Campos de Cima da Serra, hoje São Francisco de Paula, e daí ao Paraná via Nonoay.
Nova Petrópolis, segundo a Historiadora Helga Piccollo, além de alemães, recebeu imigrantes italianos, franceses, holandeses, austríacos e até norte –americanos. Em meio deste elemento estrangeiro esteve também presente o elemento nacional.
Jean Roche diz que Nova Petrópolis, colônia provincial, recebeu numerosos pedidos de concessão de terras, pedidos procedentes de colonos jovens nascidos em São Leopoldo e desejosos de obter um lote para poderem assim se casar e formar família.
Os primeiros imigrantes de Nova Petrópolis (1858 a 1859) foram na sua grande maioria lavradores, depois foram chegando os alfaiates, marceneiros, carpinteiros, negociantes, entre outros.
Nada naquela época foi fácil, como locomover-se sem estradas, proporcionar educação às crianças , se nem escola existia, vivenciar a religião sem sequer ter um auxilio espiritual.
Assim, aqueles que iam chegando, recebiam a ajuda dos que já estavam estabelecidos, passo a passo foram sendo construídas as primeiras “casas”, estas bem rústicas, de chão batido. A alimentação era o que mais preocupava, então plantavam para sua própria subsistência e com o passar do tempo iniciaram a venda dos excedentes. Plantavam de tudo: milho, arroz, feijão, batata-inglesa e doce, mandioca, cevada, centeio, trigo, cana-de-açúcar para a fabricação de melado e de açúcar mascavo, café, cebola, amendoim, ervilha... .Entre as frutas, as mais cultivadas eram a laranja, a bergamota, o caqui, o pêssego, a maçã, a pêra, a ameixa, o figo, o marmelo, a uva, o morango, as nozes. Quanto às verduras podemos citar o repolho, a couve, a cenoura, a beterraba, o nabo, a alface, os temperos, e etc.
A carroça puxada por bois, cavalos ou burros era o único meio de transporte de pessoas e mercadorias. As estradas, verdadeiras “picadas” abertas no meio da mata, em dias de chuva se tornavam verdadeiros lodaçais quase intransponíveis. Para termos uma idéia o Pe. Arsênio José Schmitz no livro “ Uma Nova Imagem para Nova Petrópolis” nos relata que o trajeto entre a Linha Imperial e sede do município de 8 km apenas, levava em torno de 4 horas. “Certa vez um casal de noivos, que ficou preso na estrada devido ao lodo, quase não pode se casar, pois o Padre perdera a paciência de tanto esperar, e não queria mais realizar o casamento”. ( SCHMITZ, 1975, p.61)
O depoente Antonio Pedro Mallmann no livro “Contribuição para a História de Nova Petrópolis – Depoimentos, coordenado por Gessy Deppe (1988) nos relata: “(...) O avô muitas vezes contou (...) tudo era mato (...) tão fundo era o barro (...) algumas vezes tinham que erguer os burros, para que a carroça não ficasse atolada (...)Muitas vezes eles passaram dificuldades. Eles algumas vezes saiam com bom tempo (...). Quando então chegavam em Ivoti, começava a chover. Até que eles voltassem, o rio já estava alto (...). O avô contou muitas vezes, que às vezes carregavam sal, e (...) sacos de farinha de trigo . Até que atravessaram o rio, tudo estava molhado e derretido. Toda a viagem fora feita inutilmente (...)”. (DEPPE, 1988, p.103)
A grande dificuldade encontrada pelos imigrantes; é que muitos deles não eram agricultores, não sabiam trabalhar na terra, tinham suas profissões: eram marceneiros, ferreiros, celeiros, tecelões...quando aqui chegaram, tiveram que aprender a nova profissão; nestes casos as dificuldades eram ainda maiores. Amanda Kaiser conta: “(...) A profissão do meu avô era Tanoeiro, ele era natural da terra do vinho da Mosela. Depois eles trabalharam na roça, pois outra coisa não havia por aqui.(...)” (DEPPE,1988, p.123)
As mulheres desempenharam papel importantíssimo na família e no desenvolvimento da comunidade: além dos seus afazeres domésticos, do cuidado com os filhos, acompanhavam os seus maridos na lavoura. Tinham uma jornada dupla, como recorda a depoente Wilma Rott: “(...) As mulheres sempre tinham que ir junto trabalhar(...)” (DEPPE,1988, p.111) e o depoente Freno Gehnke: “ (...) Todo mundo ia igual para a roça (...) A dona de casa largava um pouquinho antes, pra fazer o almoço (...). Na segunda feira ela ficava em casa para lavar a roupa (...). (DEPPE,1988, p. 107). Sobre a roupa, tão comum entre nós hoje com várias estampas e tecidos, naquela época não era assim: a depoente Martha Kirschner revela: “ (...) Roupa de cama , como era difícil comprar (...). Como se remendava. Todo mundo tinha que saber remendar (...). Remendar era uma arte que todo mundo tinha que trazer de casa (...) Ai daquela moça que casava e não sabia remendar (...). Minha mãe não podia remendar em dia que não chovesse (...) porque em dia bonito, de sol, ela aproveitava e ia trabalhar fora (...)”. (DEPPE,1988, p.107).
Assim, a Colônia de Nova Petrópolis crescia e se desenvolvia a passos largos; no livro: Contribuição para a História de Nova Petrópolis: Colonização e Evolução da Colônia, Helga Picollo descreve: “ (...) na abertura da primeira sessão da nona legislatura pelo presidente Antão Fernandes Leão, em 5 de novembro de 1860, apresentava os seguintes dados sobre a Colônia de Nova Petrópolis (...) . A população incluía 280 solteiros, 214 casados e 3 viúvos; 68 eram católicos e 429 protestantes. De julho de 1859 a junho de 1860, verificaram-se 10 casamentos, 18 nascimentos e 18 óbitos. A colheita fora de 1.200 sacos de milho, 80 sacos de feijão e 433 sacos de batata. Os colonos possuíam 94 animais cavalares 3 muares e 105 cabras.(...)” ( PICOLLO, 1989, p.72).
Podemos perceber o quanto foram persistentes nossos antepassados, concretizando suas lutas em cada comunidade com muita vontade de vencer, de dar educação e formação espiritual aos filhos, tendo inclusive construído com suas próprias mãos e recursos, suas casas, escolas, igrejas, etc.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
DEPPE, Gessy. (Org) Contribuição para a História de Nova Petrópolis – Depoimentos./ Secretaria da Educação e Cultura de Nova Petrópolis. Caxias do Sul: EDCUS, 1988.
PICOLLO, Helga I. Landgraf. Contribuição para a História de Nova Petrópolis: Colonização e Evolução da Colônia.Caxias do Sul: EDUCS. 1989.
SCHMITZ, Arsênio José. Uma Nova Imagem para Nova Petrópolis: Estudo Sobre a Imigração e a Aculturação.Tipografia della Pontifícia Universitá Gregroriana in Roma. 1975.
Marilu Ana Bielski Kern
Licenciada em História e Pós-graduada em História do Rio Grande do Sul,
pela
Universidade Do Vale do Rio dos Sinos
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